A Luz que Reescreveu o Céu

A Luz que Reescreveu o Céu




Abri lentamente os olhos, retornando de um sono pesado e silencioso. A claridade suave do quarto me atingiu primeiro, e então, vi seu pai. Ele estava sentado ao lado da cama, com o corpo levemente curvado pra frente, como se o simples ato de esperar já tivesse consumido parte dele. Assim que percebeu que eu havia despertado, ele se levantou de imediato e me envolveu num abraço apertado — caloroso, cheio de afeto contido, mas sem exageros. Um abraço que, mesmo frágil, arrancou de mim um leve sorriso. Fraco, mas sincero.

— Graças a Deus… você acordou. Eu achei que... — ele começou a dizer, mas sua voz tremeu no meio da frase, quebrada por uma emoção que ele já não conseguia esconder. Seus olhos, sempre tão firmes, começaram a brilhar com lágrimas que se acumulavam devagar, como se ele próprio estivesse surpreso por estar à beira do choro.

Ver seu pai naquela condição… olha, não era comum. Ele nunca foi de expor tanto assim. Chorar, então? Algo que eu poderia contar nos dedos — e ainda sobrariam dedos. Era coisa rara. Mas, naquele momento, ver esse lado dele não me assustou. Pelo contrário. Aquilo dizia muita coisa. Mostrava que, apesar de tudo, ele ainda estava ali comigo.

— Hm… — murmurei, com a voz fraca, ainda me sentindo meio desconectada da realidade. — .. Cadê meu bebê?

Foi a primeira coisa que consegui perguntar. Eu precisava te ver. Precisava te sentir, saber que estava tudo bem com você. Mais do que qualquer coisa, naquele instante, era isso que importava pra mim.

Seu pai me encarou por alguns segundos. Respirou fundo. Fez uma pausa breve — daquelas que carregam um peso estranho — e respondeu:

— Ela está em um bercinho hospitalar feito para ela.. mas eu gostaria muito de saber se.. você tá—

— Sim, sim… — interrompi, com pressa e um pouco de impaciência. — Eu tô bem. Só tô… me recuperando. Mas, por favor… eu só preciso ver o meu precioso bebê!

Houve um breve silêncio. Ele desviou o olhar, encarou um canto qualquer do quarto e apertou os lábios, como quem ainda hesita por dentro.

— Certo… certo, eu já volto, tá? Descansa um pouco enquanto isso.

Ele se afastou devagar da cama e saiu. E eu fiquei ali, sozinha novamente. Esperando.

Passaram-se, talvez, vinte… trinta minutos. Não sei ao certo — o tempo, naquele tipo de situação, se arrasta de forma quase cruel. A espera, que no início parecia razoável, começou a se transformar numa inquietação incômoda. Aquilo deveria ter sido simples e direto. Bastava pegá-la e trazê-la até mim… certo?

Confesso que eu comecei a me preocupar de primeiro momento, a minha primeira preocupação de mãe. Mas isso eu já não considerava tão bom assim, porque minha cabeça já começava a imaginar os piores cenários possíveis.

Mas ele demorava.

E, sem que eu pudesse controlar, o alarme materno começou a soar dentro de mim. Um sinal novo, ainda desconhecido, mas poderoso. Meu corpo estava fraco, mas minha mente começava a correr — e não para frente, mas para baixo. Eu comecei a pensar em tudo o que poderia estar errado. Tudo que poderia ter acontecido. As possibilidades sombrias começaram a se insinuar na minha cabeça, como se minha própria imaginação tivesse se tornado inimiga naquele momento.

Mas, veja só… todos aqueles cenários catastróficos que minha mente insistia em montar nos últimos oito minutos não passavam, afinal, de meras projeções ansiosas. Porque, no instante seguinte, a porta do quarto se abriu com delicadeza, e por ela entraram seu pai e uma enfermeira, e nos braços dela… você.

Ele caminhava ao lado dela com passos contidos, mas o olhar claramente exposto: alívio, admiração, talvez até um pouco de incredulidade. E ali, aninhada no colo daquela mulher de jaleco branco, estava você, tão minha.

Um sorriso tomou meu rosto como uma onda quente, e cada passo que eles davam em minha direção parecia ampliar ainda mais essa alegria. Eu sorri como há muito tempo não sorria. E sorriria de novo, incontáveis vezes, só por reviver aquela cena.

— Parabéns, mamãe! É uma menininha linda! — disse a enfermeira com uma suavidade na voz que parecia ter sido escolhida a dedo pelos céus só para aquele momento.

E foi assim, após toda uma travessia de angústia e esperança, que eu finalmente te tive nos meus braços. Minha pequena estrela.

Passei os dedos bem de leve pela sua cabeça, tão delicada quanto um botão de flor recém-nascido. Em seguida, te abracei como se estivesse protegendo o tesouro mais raro e precioso que já existiu neste planeta — e, honestamente, é exatamente isso que você era pra mim. E ainda é.

Você era pura doçura. Um serzinho que despertava em mim uma emoção avassaladora, indescritível, impossível de ser traduzida em palavras — mas que se expressava no simples fato de que eu não queria te soltar nunca mais. Eu desejava congelar o tempo ali, só pra te ter assim, pra sempre, aninhada no meu colo.

— Ora.. por que demoraram tanto? — perguntei com a voz mansa, entre um carinho e outro, encostando de leve meu nariz no seu, num gesto de ternura quase infantil. Meus olhos estavam marejados, mas não de tristeza, eram lágrimas de um tipo de felicidade que rasga o peito e costura tudo de volta, só que mais forte. — Cheguei até a achar que algo de ruim tinha acontecido..!

A enfermeira soltou uma risadinha breve, divertida:

— Ah, eu encontrei seu marido parado feito uma estátua em frente ao bercinho da bebê. Tava com uma cara meio… estranha. Tremia um pouco, sabe? Confesso que achei que ele ia desmaiar! Entãããããão resolvi intervir antes que ele travasse de vez. Achei que precisava de um empurrãozinho!

Na mesma hora, parei o que estava fazendo. Congelei por um instante, tentando absorver a cena que ela acabara de descrever. Franzi o cenho, ergui a sobrancelha com aquele ar típico de quem quer muito entender o que, de fato, estava acontecendo.

— Como assim parado na frente do berço? — perguntei, alternando o olhar entre ela e seu pai. — Então ele já tinha ela todo esse tem—

Mas antes que a pergunta pudesse ser levada adiante, seu pai deu um daqueles pigarros forçados e rapidamente se aproximou da cama, interrompendo qualquer tentativa de investigação mais profunda.

— Ahem! Ahem! Sim, eu já tinha encontrado ela esse tempo todo.. admito. — ele confessou, a voz meio arrastada, com aquele tom de quem foi pego no flagra e tenta suavizar a culpa com um sorriso tímido.

— .. Eeeee por que a demora, Kyran? — Eu perguntei, a voz meio receosa e meio hesitante.

Ele respirou fundo, deu de ombros e sorriu de leve, como quem já sabia que ia ser perdoado antes mesmo de terminar a frase.

— Ah, eu só… parei um pouco pra olhar pra ela. Fiquei ali, parado, sabe? Tentando entender. Afinal, eu também sou o pai, né, Mazzi? — disse ele com aquele tom meio desajeitado, mas genuinamente carinhoso. — E olha, vou ser honesto… ela é linda. Linda de um jeito que eu não tava preparado. Ela tem os seus olhos, você sabia disso?

Na hora, meus olhos desceram de novo pro seu rostinho. E ali estava você, me encarando com aquela expressão entre o bobo e o sagrado que só um bebê recém-nascido consegue ter.

Ele tinha razão. Você tinha meus olhos. Não só isso, você era, em tantos traços, uma miniatura de mim. Um espelho novinho em folha, ainda sem mágoas nem rugas, refletindo quem eu fui antes da vida acontecer.

Sorri e dei um beijo na sua testa, tão pequeno e suave que parecia um selo de pertencimento. E foi então que seu pai, com aquele tom teatral, que mistura afeto com provocação, perguntou:

— .. Jááá pensou em um nome, querida?

A pergunta me pegou como um balde de água fria… mas daqueles morninhos, que te acordam sem agressividade. Meu olhar se perdeu por um segundo, como se estivesse tentando vasculhar algum cantinho esquecido da memória.

Era surreal. Eu tinha me preparado pra tudo. Planejei o quarto com cada detalhe, escolhi as roupas mais fofas, comprei brinquedos, pelúcias, até aqueles mobiles que giram em cima do berço com musiquinha calma. Mas esqueci o essencial. Esqueci do seu nome.

Levei a mão à testa e dei um leve tapa em mim mesma. Uma tentativa meio cômica, meio sincera, de chamar minha própria atenção.

— Argh, não! Que droga… — resmunguei, com um peso inesperado na voz. — Eu me preparei tanto pra esse momento, tanto, e acabei esquecendo da parte mais importante. Mal comecei a ser mãe e já tô me sentindo falha…

Sei que pra muita gente isso poderia soar como um detalhe bobo. Uma besteira, talvez. Afinal, nomes podem esperar. Mas pra mim, naquele instante, esquecer o nome era como esquecer de dar identidade a um pedaço da minha alma. Era como se eu tivesse feito tudo… menos o mais humano, o mais íntimo: te reconhecer por um nome.

Ele riu e passou a mão pelos meus cabelos com carinho, como se estivesse tentando me acalmar com um gesto familiar.

— Ooora, não seja por isso, querida… — disse ele com um tom brincalhão, enquanto levava a mão até a barba, pensativo. — Hmmm…

Ficou em silêncio por alguns segundos, fazendo aquela cara de quem tá tentando buscar algo lá do fundo da memória, talvez entre lembranças ou inspirações esquecidas. Após cerca de três minutos nesse processo de contemplação quase filosófica, ele estalou os dedos e me olhou com um brilho nos olhos, como se tivesse acabado de resolver um quebra-cabeça antigo.

— Que tal… “Miska”? — sugeriu, erguendo uma sobrancelha de maneira provocativa, desviando o olhar para você, aninhada nos meus braços.

— Miska? — repeti, num tom entre a surpresa e a curiosidade. — Que nome mais… diferente. É criativo, sim, mas peculiar. Existe alguém no mundo com esse nome?

Ele deu uma leve risada e respondeu, com aquela franqueza desarmante:

— Pensando bem… não. — E, antes que eu reagisse, continuou: — Mas meu pai se chamava Sandor Miksa. Ele veio praticamente do nada, viveu tempos difíceis, cresceu na miséria, mas nunca deixou de sonhar. Com persistência, ele se tornou um dos artistas mais reconhecidos do mundo. Foi, sem dúvida, meu maior exemplo de resiliência.

Fiquei alguns segundos em silêncio, absorvendo o que ele acabara de dizer. Era raro vê-lo falar sobre o passado com tanta abertura, ainda mais sobre algo tão pessoal.

— … Sério? Meu Deus mas.. que cara incrível, você nunca tinha me contado dele antes, amor. — Eu disse, me aconchegando um pouco com você.

— Hm.. há coisas que prefiro guardar. Algumas memórias a gente só compartilha quando o coração sente que é a hora certa.

Fiquei tocada. Olhei para você de novo, para seu rostinho tão pequeno, tão seu — e, ao mesmo tempo, tão nosso. Sorri.

— Sabe… — comecei, ainda imersa naquele instante — é um nome único. Tão único quanto ela... Hmmm, é, eu aceito. Ela vai ser a nossa Miska.

Inclinei-me levemente e depositei um beijo suave na sua bochecha. Em resposta, você soltou um som inesperado, mas completamente encantador: uma risadinha breve, frágil, mas claramente sua. Um som que encheu o quarto de um calor difícil de explicar.

Você então tentou levantar sua mãozinha, esticando os dedinhos na direção do meu rosto — como se já estivesse tentando reconhecer o mundo pela ponta dos dedos. Dei uma “mãozinha” e inclinei o rosto até você conseguir me alcançar.

E quando seu toque encostou na minha pele, você riu mais uma vez. Riu como quem descobre algo extraordinário no simples contato.

E eu ri também, sem sequer pensar.


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